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Entrevista a André Tereso

Sobre o restauro e preservação do património cultural e vernacular



Gostamos de promover quem já tem práticas sustentáveis e partilha dos nossos valores. Assim, convidámos o restaurador e conservador André Tereso da ACTPR a partilhar formas de diminuir a nossa pegada ecológica como arquitetos.

 

ACAN PT: Lidando com o setor da construção há mais de 20 anos, o que defendes ser a medida mais urgente para atingir a menor pegada ecológica no setor em Portugal? (por exemplo, alteração da legislação para obrigar ao cumprimento de certos parâmetros, sensibilização do público em geral, economia circular, energias renováveis, reformar os currículos dos cursos, etc.)

AT: Considero que um conceito base tão denso e necessário implementar, tenha que partir das bases de uma cultura. Considero que a educação por uma “ecologia profunda”, que respeite todos os elementos da natureza, carece de uma estrutura e implementação transversal a todos os setores, para se enraizar e fortalecer.

O setor da construção está desatualizado e a responder a necessidades/princípios desatualizados, necessitando de novos conceitos, formação, atualização, informação e um novo modo de estar. Há mais de 20 anos que o setor primário da construção não tem formação específica, especializada e direcionada para um mercado exigente e em constante transformação. Onde estão os cursos profissionais de mão de obra específica, de pedreiros, eletricistas, canalizadores, carpinteiros, estucadores etc.? Onde estão os mestres e o saber-fazer que passava de geração em geração?


ACAN PT: Qual seria a melhor forma de procurar aplicar o que defendes e de que modo a ACAN poderia contribuir para esse fim? Qual a prioridade no combate à crise climática?


AT: Despertar consciências, sensibilizar, tornar a informação acessível, para que a sociedade perceba efetivamente o que pode mudar e o impacto que isso tem. Existindo uma consciência global, é mais fácil exigir a quem legisla, que as políticas vigentes sejam efetivas e a médio/longo prazo, em prol de um bem comum e global. A prioridade é que os Estados concretizem efetivamente uma mudança global nas suas prioridades e políticas. Importa desenvolver incentivos verdes, com empresas mais verdes e políticas verdes. Perceber as necessidades para a alteração para uma construção mais sustentável e implementá-la efetivamente. A nível de princípio, implementação, formação, material, entre outras.

Considero importante reverter o princípio do consumo, fomentando escolhas mais eco e lógicas. Como exemplo: ir buscar à Alemanha placas de barro e cânhamo prensado*, pode ter mais impacto que consumir um material de produção local mesmo que este não seja o mais sustentável. Importa sim:

  • Tornar possível que materiais mais sustentáveis, sejam produzidos e consumidos localmente (economia circular).

  • Desburocratizar, tornar mais acessível os processos de certificação. Certificar métodos de construção sustentáveis / mais naturais, sem que estes tenham que responder aos mesmos parâmetros que os materiais de produção industrial. Por exemplo, a construção com fardos de palha, que se torna inviável se várias vezes ao ano se tiver que submeter a testes para manter a certificação. Importa restabelecer técnicas e tecnologias do passado, com a atualização necessária aos novos desafios (taipa, adobe, etc.).

  • Investir na formação, profissional e académica. Nas faculdades de arquitetura, ainda não é usual falar-se em políticas verdes e sustentáveis, numa nova dinâmica e atualizada no modo de ver a arquitetura num todo. Importa ter gestores de micro e médias empresas, pedreiros, etc., com formação adequada, para que saibam fazer orçamentos ajustados, como materiais e métodos adequados e mais sustentáveis, em prol de um menor impacto ecológico, mas também económico e social.

  • Novas políticas governamentais, mais informação e conhecimento, faz com que clientes optem pelas opções mais duráveis e sustentáveis numa perspetiva a médio / longo prazo, não se caindo no "facilitismo" do mais barato e imediato. Importa continuar a reabilitar, a ajustar a construção existente e evitar construção selvagem, desmedida e sem critérios de sustentabilidade. A auto-suficiência também deve ser uma premissa.

A prioridade na sustentabilidade climática, é conseguirmos implementar uma vida sustentável transversal a todas as nossas escolhas diárias. O modo como implementamos o nosso modus vivendi na escolha dos alimentos, vestuário, transporte, habitação, etc. A nível construtivo importa “criar edifícios saudáveis, bonitos e sustentáveis em comunidades ecologicamente corretas e socialmente conectadas. Na seleção de materiais e no design dos ambientes de vida, os aspetos ecológicos, econômicos e sociais devem ser considerados”**.


ACAN PT: Nas construções em que já tiveste envolvido, conseguiste dar primazia à sustentabilidade - por exemplo através da economia circular, da introdução de materiais locais, etc.? Foi consequência ou premissa? O cliente estava disposto a aplicar princípios de sustentabilidade? Podes dar um exemplo?


AT: Grande parte dos projetos em que estou envolvido, dizem respeito a reabilitação / ampliações de construções já existentes e realizadas com tipo de construção vernacular. Em parte, a construção vernacular do passado (construção anterior aos anos 30/40 do século XX) utilizava materiais locais, e interagia com várias áreas que se baseavam na economia circular.

Quando se inicia um contacto para um projeto, a fase inicial de diagnóstico do existente e perceção do pretendido, tende sempre a seguir os princípios de compatibilidade, funcionalidade e durabilidade dos materiais, de modo a respeitar a materialidade e imaterialidade pré-existente. É uma premissa no meu envolvimento e colaboração. Muitas vezes sou consultado a colaborar com a equipa projetista na avaliação e estudo das melhores opções a adotar (equipa pluridisciplinar). Os princípios de sustentabilidade são quase sempre abordados, mas muitas vezes em Portugal os materiais e preços tornam algumas opções inviáveis. O material e projetos de referência, são os que envolvem cal e barro, na sua maioria. Dou o exemplo da reabilitação do Convento dos Capuchos, em Colares e algumas reabilitações de casas particulares.


ACAN PT: Sendo um entusiasta e aspirante pela preservação do conhecimento vernacular, crês que este tem potencial para ser uma ferramenta preponderante no combate às alterações climáticas e à degradação ecológica? De que modo?

AT: A preservação do saber-fazer e o conhecimento pelas técnicas e tecnologias, são ferramentas e pontos fundamentais para a atualização e implementação de princípios mais ecológicos, económicos e sociais. Importa interligar todas elas, para que o peso da construção seja mais ténue nas nossas vidas, fazendo cumprir o direito à habitação que está na constituição.

Saber que com o barro que nos é acessível, podemos moldar e construir através do adobe, taipa ou cob, ou que com a construção de fardos de palha podemos construir mais rápido, ou que a madeira cortada no minguante, pode fazer com que os insetos xilófagos não a ataquem tanto, etc., permite-nos avaliar e decidir adequadamente que caminho seguir. O caso do eucalipto, não sendo banalizado e mal utilizado na gestão e implementação florestal, pode ser uma boa madeira para construção e as casas pobres que utilizavam materiais banais e locais no passado, podem ser as casas bonitas e sustentáveis do presente, bastando para isso reutilizar, reinventar, renovar alguns conceitos.


ACAN PT: És um praticante de conservação preventiva, na medida em que o restauro e a manutenção de património (e não só) têm um papel importante ao definir medidas e políticas preventivas no combate à degradação.

Consideras que a atual legislação incentiva a conservação e o restauro no combate às alterações climáticas? Podes especificar os desafios ao pôr em prática?


AT: “Mais vale prevenir, que remediar”. É um ditado e um conceito antigo, que se ajusta a alguns contextos. Sobretudo no que diz respeito à área da conservação e restauro, que devia ter neste princípio a energia motora de ação. No modo de ação, mais técnico e/ou científico, as alterações climáticas para com o património cultural, tornaram-se mais evidentes através do turismo, da poluição atmosférica, etc. em ambientes com uma grande dinâmica social, industrial. É muito comum, sobretudo em património arquitetónico verificar-se o decaimento físico e químico nas superfícies pelos agentes atmosféricos que acentuam gravemente o decaimento dos materiais, e essa alterabilidade acelerou nos últimos anos. Mesmo a nível de ação prática, importa a atualização da área e ir em busca de materiais e métodos menos agressivos para o meio ambiente e para os técnicos.

Considero importante a redução na utilização de químicos (derivados do petróleo, prejudiciais ao meio ambiente, etc.) e a correta recolha dos resíduos químicos. Controlo biológico, por métodos mais naturais / biológicos. Fomento por um turismo mais equilibrado e sustentável, com maior dinâmica e envolvimento fora dos grandes centros urbanos e resolver os problemas com resíduos de intervenção / obra, são transversais e uma grande problemática a resolver. Voltando à construção, importa deixar de haver “entulho” de obra, tornando reutilizável tudo o que possa ser utilizado. Quando assim for, acredito que estamos num bom caminho!


* http://www.deepecology.org/

** 25 Guiding Principles of Building Biology – buildingbiology.com

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